Mortos ganham páginas no Orkut
SÃO PAULO - Lançado em janeiro de 2004, o Orkut se tornou um site de relacionamento muito popular, sobretudo entre os jovens em busca de paqueras ou amizades. Segundo o Google, há 55 milhões de participantes no mundo, sendo 53% brasileiros. Mas a febre no país chegou a tal ponto que nem os mortos ficaram fora desse modismo. Além de oferecer a chance de conhecer gente de todos os gêneros e idades, o Orkut também se tornou uma ferramenta para saber sobre a vida de quem já morreu. Isso ficou evidente em tragédias recentes que envolviam pessoas que tinham perfis (como são chamados os cadastros) no site.
Um dos casos é o do estudante Kleber Rodrigo Plens, de 27 anos. Na manhã de 17 de fevereiro, um domingo, ele morreu após rodar por quatro quilômetros na contramão pela Rodovia Castello Branco, em Barueri, na Grande São Paulo, e bater de frente com um caminhão. Dois dias depois, a página pessoal de Kleber registrava cinco mil mensagens, e quatro dias depois, dez mil.
Obviamente havia mensagens de lamentação e pêsames, mas também recados grosseiros, criticando o gesto tresloucado do estudante, e até textos que ofendiam o defunto. Muitas pessoas só acessaram o perfil do rapaz para saber quem ele era.
- A curiosidade sobre o mórbido é algo inerente ao ser humano - explica Luciana Ruffo, psicóloga do Núcleo de Pesquisa da Psicologia em Informática da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Para evitar essa invasão de privacidade póstuma, muitos dos perfis de pessoas que já morreram são apagados por amigos ou parentes, quando eles têm a senha do morto, no Orkut.
Já a família de Priscila Regina Jardim, assassinada em junho de 2007, criou uma comunidade para ela no Orkut. A iniciativa partiu de sua mãe, Regina Jardim, de 47 anos, para não deixar a garota nem o caso serem esquecidos.
Remédio para depressãoA professora universitária Regina Jardim decidiu criar a comunidade "Priscila: quem ama não mata" em homenagem à filha, a recepcionista Priscila Regina Jardim, morta aos 29 anos pelo ex-namorado. Foi uma maneira de vencer a depressão, que sentia logo após a morte da jovem e de conscientizar as pessoas do quanto comum é um crime passional (cometido por ciúme).
- No início, queria criar uma página própria na internet. Mas, como já tinha uma certa habilidade no Orkut, resolvi fazer a comunidade - explica Regina.
- O site pode ser uma ótima ferramenta para a troca de informações importantes - completa.
Atualmente, a comunidade de Regina tem mais de 1.800 membros. Já a família de Carlos Andrei Carvalho, de 32 anos, preferiu manter o seu perfil no Orkut, com fotos dele e da família. O rapaz trabalhava no Tribunal Regional Eleitoral (TRE) e estudava Geografia na Universidade de São Paulo, onde foi encontrado morto em novembro do ano passado.
Na página pessoal de Carlos Andrei, no site de relacionamentos, há uma mensagem em que a família agradece o apoio e as orações. Além disso, promete responder aos contatos.
A favor e contraHá participantes do Orkut favoráveis e outros contrários à existência de perfis póstumos. De um lado, estão aqueles que desejam permanecer no site depois de morrerem. Eles são membros de comunidades como "Se eu morrer, meu Orkut fica". De outro, encontram-se as pessoas que não querem receber mensagens depois de mortos e fazem parte das comunidades "Se eu morrer, deletem meu Orkut" ou "Se eu morrer, apague meu Orkut!"
Segundo a psicóloga Luciana Ruffo, um dos motivos que levam à permanência do perfil é o processo de luto da família, que sente dificuldade de se desapegar do morto.
- É uma situação parecida à que acontece quando um parente continua a colocar a mesa para alguém que já faleceu - conta.
No entanto, para ela, esse período deveria durar um ano, no máximo. Segundo o Google, para apagar um perfil de um morto é preciso ter a senha dele. Caso a família deseje encerrar a conta no site de relacionamentos sem a senha, a única alternativa é recorrer à ferramenta de reporte de abusos do Orkut.
(Fonte)















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